Enquanto a infraestrutura se aquece, a construção industrial reflete a crise global

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Proximidade das eleições movimenta
obras de infraestrutura a nível federal e estadual

No ano de 2009, não só as obras federais agitaram o mercado, mas os projetos dos governos estaduais e a retomada intensa da indústria imobiliária apresentaram ótima performance. Entretanto, os empreendimentos industriais entraram em marcha lenta, pressionados pelas incertezas da crise global.

O cenário de 2009 era bem diferente do atual, quando os números do Produto Interno Bruto (PIB) atestam a força dos países emergentes, que se livraram da crise global iniciada em 2008 numa velocidade insuspeita e retomaram a trilha da expansão econômica. Em 2009, os projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal começaram a acelerar suas obras, já com vistas às eleições do ano seguinte. Os governos estaduais também entravam em ritmo de conclusão das principais obras, pelos mesmos motivos.

A indústria imobiliária decolava seguindo uma trajetória ascendente, irrigada com fartos recursos de financiamento para a classe média e estimulada pelas perspectivas do programa Minha Casa, Minha Vida que anunciava a construção de um milhão de moradias para a população de baixa renda.

O segmento de construção industrial contrastava com este cenário otimista, porque a crise global havia colocado os empreendimentos industriais e comerciais em xeque, na medida em que os mercados dos EUA, Europa e Japão entraram em estado de choque. Havia o receio generalizado de que esta estagnação contaminasse os países emergentes, como o Brasil, a Índia e a China.

Os investimentos em expansão e novas plantas ou CDs foram preventivamente suspensos, muitas vezes por causa da crise nos países de origem dos grupos empresariais. Grupos brasileiros também brecaram seus investimentos porque os mercados de exportação haviam entrado em colapso. Segmentos industriais como mineração, metalurgia, siderurgia, papel e celulose foram particularmente afetados. Minas de alto custo de produção chegaram a ser paralisados e alto-fornos de aciarias desligados.

Já no terceiro trimestre de 2009, os números da economia chinesa mostraram que a pacote de mais de US$ 500 bilhões de estímulo funcionou e o gigante asiático não havia se abalado como os países do G8. A China retomou seu fôlego, ignorou os países industrializados e seguiu seu caminho, embora a taxas mais modestas de crescimento, se é que podem ser chamadas como tal. Aproveitando as vastas reservas cambiais, as empresas chinesas, a maior parte com controle ou participação estatal, foram às compras, aproveitando a depreciação sensível dos ativos no Ocidente.

Aí, os analistas econômicos começaram a alardear que a China havia se descolado dos EUA e da Europa, e aproveitando a crise global, poderia se transformar na maior potência econômica mundial em menos tempo do que se supunha poucos anos atrás. Os outros países emergentes como o Brasil também foram colocados sob o spot do estrelato, vistos como as prováveis locomotivas para a recuperação global. Uma reviravolta sem precedentes desde o fim da II Guerra Mundial, que estabeleceu a hegemonia e a pax americana.

Os números de expansão do PIB no primeiro trimestre de 2010 confirmaram essas projeções. Enquanto a China, Índia, Brasil e outros emergentes sustentam taxas variadas de crescimento e os EUA ainda não revelam sinais sólidos de que saíram do declínio e ingressaram na retomada da atividade econômica, a Europa patina talvez com a exceção da Alemanha. Enquanto isso, o Japão parece continuar sem rumo após uma década de estagnação.

Brasil e seus enigmas

Como na mitologia da esfinge que apresenta um enigma a ser decifrado ("Decifra-me ou devoro-te"), o Brasil se defronta com seus próprios enigmas. Quando se desenhava um cenário onírico de transformação propiciada pela Copa do Mundo 2014 e Olimpíada 2016, criando as fundações para um pais do 3o Milênio, eis que novas enchentes em diversas regiões nos remetem à realidade da obsolescência da nossa infraestrutura, ausência absolta de monitoramento de fenômenos naturais – com exceção das previsões de tempo – e inoperância da burocracia estatal para liberar recursos de emergência.

O veto ao estádio do Morumbi em São Paulo para sediar a abertura da Copa de 2014, articulado aqui no País de modo a abrir espaço para se construir um elefante branco -, com capacidade para 70 mil espectadores – nos remete à lembrança do estádio Ninho de Pássaro, em Beijing, China, que talvez vire shopping center – e alguns estádios da África do Sul que, quando muito, vão sediar jogos de rúgbi, ocupando 20% da sua capacidade. Esse incidente é um alerta à sociedade brasileira sobre o que pode acontecer com as obras da Copa e da Olimpíada.

O jornal O Estado de S.Paulo traz o perfil do vitorioso empresário Guilherme Leal, fundador da empresa de cosméticos brasileira Natura, com Luiz Seabra seu sócio até hoje. Ele integra a chapa do PV nas eleições presidenciais deste ano. Leal "acha que o País vive um excelente momento na economia, mas pode se perder por falta de cérebros nos postos de liderança intelectual e tecnológico. Se isso acontecer, adverte o empresário, será a terceira grande janela da história que se abre para o Brasil e se fecha por falta de estrutura interna. As duas outras teriam ocorrido nas décadas de 50 e 70.

Traçando um paralelo na linha deste raciocínio, os dois eventos esportivos globais criam uma oportunidade de transformação das capitais brasileiras e do País, com a melhoria substancial da infraestrutura de transporte de massa e de saneamento, para falarmos apenas de dois aspectos prioritários, como legado permanente para uso da população. Caso contrario, teríamos mais uma vez perdido esta janela de oportunidade, além de desperdiçarmos um volume gigantesco de recursos cuja conta será apresentada às gerações futuras.

Elena Landau, mestre em economia e ex-diretora de privatização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), publica no jornal O Estado de S.Paulo uma análise sobre o comportamento da Confederacão Brasileira de Futebol (CBF), considerada uma entidade privada que aparentemente não dá satisfação a ninguém sobre os seus atos; ela realiza manobra nos bastidores para que recursos públicos acabem sendo utilizados para concluir a modernização dos estádios para a Copa 2014, na sua maioria com obras atrasadas. Por isso mesmo, ela propõe que o número das cidades-sede seja reduzido, de modo que os estádios sejam renovados com recursos privados apenas onde há público regular no período pós-jogos. Landau faz um alerta para que a Olimpíada 2016
no Rio de Janeiro, não repete a mal fadada experiência dos Jogos Pan-Americanos de 2007, cujas instalações não são aproveitados pela população e muito menos poderão ser utilizados para a Olimpíada.

A sociedade brasileira, que conseguiu a façanha de aprovar o projeto Ficha Limpa para excluir os candidatos à eleição de passado duvidoso, deve tomar outra decisão dramática: exigir que as obras da Copa 2014 e Olimpíada 2016 priorizem o legado pós-jogos para a população e desautorizar os projetos faraônicos e execrar seus proponentes.

Fonte: Estadão


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